Há várias décadas, a preocupação com os direitos humanos e a adoção de medidas de igualdade de gênero vem sendo objeto central de discussão de inúmeras reuniões convocadas por organismos internacionais e regionais. A perspectiva de gênero se fundamenta em valores éticos, supõe o reconhecimento da diversidade e propõe uma sociedade mais democrática e participativa.

A introdução de estatísticas relacionadas a esse tema é uma agenda cara nos últimos tempos, capaz de fomentar a importância e a relevância de informações sobre as desigualdades e as necessidades de homens e mulheres em diversos âmbitos. Tais dados são importantes para demonstrar como as relações e papéis atribuídos ao masculino e ao feminino em nossa sociedade, ainda hoje, apesar dos avanços, são assimétricas, com as mulheres  ocupando posições desfavoráveis em relação aos homens. A difusão de indicadores de gênero é importante para que a opinião pública possa visualizar as desigualdades e se sensibilizar diante delas, de modo a contribuir com a quebra de estereótipos arraigados socialmente.

Nesse sentido, propõe-se um olhar orientado para a formulação e a implementação de políticas – e não para a simples desagregação de dados por sexo – que deve abarcar diferentes dados e evidenciar as diferenças socioeconômicas e culturais que homens e mulheres vivenciam.  Assim, idade, escolaridade, raça/etnia, religião, deficiência, orientação sexual, migração, território e status de cidadania, são interseções que influenciam a análise, uma vez que reforçam as diversidades e podem influenciar as situações de desigualdades. No Brasil, por exemplo, mulheres pretas ou pardas, assim como aquelas residentes nas áreas rurais e na região Nordeste, apresentam historicamente indicadores sociais mais desfavoráveis que mulheres brancas ou residentes nas áreas urbanas ou na região Sudeste (IBGE, 2010). As estatísticas de gênero devem refletir estas e outras questões, de forma a colaborar para construção de políticas mais adequadas e consideradas prioritárias.

Caminhar rumo à igualdade e à equidade significa levar em consideração a diversidade e a interseccionalidade, requer acesso a informações de áreas remotas e de populações excluídas, além de amplo conhecimento do contexto histórico e de fatores culturais. Estas questões culturais demandam atenção, pois são capazes de expressar particularidades que influenciam os modelos de desenvolvimento locais e norteiam a formulação de políticas públicas[1]. As diferenças em termos de desenvolvimento, cultura, trajetória e responsabilidades estão postas e exigem que as equipes de gestão e avaliação reconheçam a pluralidade dos modelos existentes.

Nesse cenário, as pesquisas nacionais e regionais com dados quantitativos são importantes, mas as mesmas precisam ser contextualizadas e confrontadas com dados qualitativos, possibilitando análises mais inclusivas e responsivas no que diz respeito às necessidades locais de forma abrangente e hegemônica.

Uma abordagem de avaliação baseada em direitos humanos, embora não seja inovadora, é necessária para assegurar que diferentes atores (homens, mulheres e população marginalizada) e diferentes perspectivas sejam acolhidas nos processos avaliativos. Para tal, metodologias participativas de avaliação, que incluam grupos vulneráveis, têm grande potencial de contribuição nesses processos. Métodos qualitativos para escuta em diferentes contextos culturais precisam ser enfatizados para dar voz a esses grupos e possibilitar a construção de indicadores relevantes para compreensão de uma realidade.

A potencialização do papel da mulher e sua plena participação em condições de igualdade em todas as esferas da sociedade são fundamentais para o alcance da igualdade, do desenvolvimento e da justiça social. A avaliação sensível a essas questões tem um papel importante na produção de informações que ajudem a demonstrar transparência e a acelerar mudanças com foco em aprendizagem e inovação, de modo que seja possível caminhar rumo à construção de um mundo mais justo e igualitário, com políticas públicas mais eficientes e eficazes.

Por Juliana Moraes e Vanessa Orban, consultoras da Move

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[1] Uma cultura é composta por uma maneira de perceber o mundo, pressupostos, crenças e valores que permeiam seus rituais e seus sistemas sociais e políticos. Estes fatores influenciam padrões de comportamento, percepções de desenvolvimento e também a disposição e disponibilidade para mudanças. É preciso investigar as necessidades e os direitos, assim como a violação de direitos de indivíduos em uma determinada sociedade para assegurar os direitos de uma população de forma ampla e abrangente. Ser sensível à questão de gênero requer reconhecer a diversidade e reconhecer que os padrões culturais impõem limitações aos indivíduos baseados em crenças, ideologias e estruturas de poder.